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Portugal em mudança: o imobiliário como espelho social de uma nova geração

Há transformações num país que se tornam visíveis muito antes de aparecerem plenamente refletidas nas estatísticas.

Percebem-se na forma como as pessoas trabalham, constituem família, escolhem onde viver e reorganizam prioridades. E poucas decisões refletem de forma tão direta o momento de vida, a capacidade financeira e as expectativas de futuro como a escolha de uma casa.

O mercado imobiliário é, por isso, um dos melhores espelhos das mudanças sociais.

Portugal atravessa hoje uma dessas transformações. O contexto económico tem, naturalmente, um peso determinante, mas aquilo a que assistimos vai muito além dos preços da habitação ou das condições de acesso ao crédito.

Os agregados familiares são mais pequenos, a parentalidade acontece mais tarde, a mobilidade profissional aumentou, o trabalho tornou-se mais flexível e diferentes gerações passaram a relacionar-se com a habitação de formas menos lineares.

O resultado é um mercado em que já não existe um único percurso habitacional nem uma definição universal do que significa estabilidade.

O percurso habitacional deixou de ser tão previsível

Durante décadas, o percurso residencial de muitas famílias era relativamente previsível: sair de casa dos pais, comprar casa, constituir família e permanecer nesse imóvel durante uma parte significativa da vida.

A propriedade continua a representar segurança e a ser uma aspiração muito relevante para os portugueses. Cerca de 70% das famílias são proprietárias da sua residência principal.

Entre as famílias cujo indivíduo de referência tem menos de 35 anos, porém, essa proporção desce para cerca de 40%, mostrando como o acesso à propriedade se tornou menos imediato para as gerações mais jovens.

A aspiração pode manter-se. O que mudou foram as condições, o momento e, em muitos casos, o caminho necessário para lá chegar.

Comprar casa pode significar fazer escolhas diferentes

Para quem entra hoje no mercado, comprar casa pode acontecer mais tarde, exigir maior flexibilidade na localização ou implicar escolhas diferentes ao nível da tipologia.

O arrendamento pode prolongar-se durante mais anos e municípios anteriormente considerados periféricos começam a entrar no radar de famílias que procuram um equilíbrio mais favorável entre preço, espaço disponível, mobilidade e qualidade de vida.

Isto não significa necessariamente que a propriedade tenha perdido importância.

Significa, antes, que a relação com a habitação se tornou mais adaptável à realidade económica e às diferentes fases da vida.

A mudança não pertence apenas às gerações mais jovens

Esta transformação não se limita aos compradores mais jovens.

As famílias reorganizam as suas necessidades à medida que os filhos crescem. Profissionais com modelos de trabalho mais flexíveis reconsideram a importância da localização. E uma população progressivamente mais envelhecida coloca novas exigências relacionadas com acessibilidade, proximidade a serviços e adequação das próprias casas.

O mercado imobiliário acaba, assim, por refletir uma sociedade mais diversa, na qual diferentes perfis procuram respostas habitacionais igualmente distintas.

Lisboa e Porto continuam centrais, mas o mapa das escolhas está a alargar-se

As cidades tornam esta transformação particularmente evidente.

Lisboa e Porto continuam a concentrar emprego, investimento, serviços e procura. No entanto, a pressão sobre a habitação tem contribuído para alargar progressivamente a geografia das escolhas residenciais.

Municípios das áreas metropolitanas e outros centros urbanos ganham relevância não apenas porque podem apresentar preços mais acessíveis, mas também porque começam a oferecer condições de mobilidade, serviços e qualidade de vida capazes de sustentar essa escolha.

Esta redistribuição traz, contudo, novos desafios.

Quando a procura se desloca, desloca também a pressão sobre transportes, infraestruturas, equipamentos e oferta habitacional.

O desenvolvimento de novos polos pode contribuir para um território mais equilibrado, mas só será sustentável se for acompanhado por planeamento capaz de antecipar as necessidades das populações que passam a viver nesses locais.

Uma população mais diversa também transforma o mercado

A crescente diversidade de quem vive em Portugal está igualmente a alterar as cidades e o próprio mercado imobiliário.

A chegada de novos residentes, nacionais e estrangeiros, acrescenta procura, diversidade e atividade económica, mas aumenta também a necessidade de encontrar um equilíbrio entre atratividade e acessibilidade.

O desafio não está em escolher entre crescimento e coesão, mas em criar condições para que ambos possam coexistir.

A oferta terá de acompanhar novas formas de viver

É neste contexto que o setor imobiliário terá de continuar a evoluir.

Uma sociedade com agregados mais pequenos, percursos profissionais menos lineares, maior longevidade e necessidades habitacionais mais diversas dificilmente poderá continuar a ser servida por uma oferta pensada segundo modelos do passado.

Tipologia, localização, acessibilidade, mobilidade e proximidade a serviços terão cada vez mais peso.

Também será determinante a capacidade das políticas públicas e do investimento privado para responder a diferentes fases da vida e diferentes formas de habitar.

O imobiliário é também uma forma de perceber a sociedade

O mercado imobiliário é muito mais do que um conjunto de preços e transações.

É também uma forma de observar como a sociedade está a mudar.

Portugal não está isolado nesta transformação. Alterações demográficas, novas formas de trabalhar, maior mobilidade e diferentes modelos familiares estão a redefinir as necessidades habitacionais em vários mercados.

No nosso país, as casas que procuramos, os lugares onde aceitamos viver e as escolhas que fazemos perante as limitações e oportunidades existentes dizem muito sobre a sociedade que somos hoje.

O verdadeiro desafio para o futuro não será antecipar apenas quanto vão valer as casas.

Será compreender quem vai precisar delas, onde vai querer viver e de que forma as novas gerações irão construir a sua relação com a habitação.

Porque o mercado pode ajudar-nos a perceber para onde vão os preços, mas diz-nos também, cada vez mais, para onde está a mudar o país.

Tiago Ferreira
Head of Sales, Imovirtual & OLX

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