{"id":5435,"date":"2026-05-13T13:57:24","date_gmt":"2026-05-13T13:57:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.imovirtual.com\/noticias\/?p=5435"},"modified":"2026-05-13T13:57:24","modified_gmt":"2026-05-13T13:57:24","slug":"preferencia-publica-e-cessao-de-posicao-contratual-no-cpcv-quando-o-sistema-complica-o-que-devia-proteger","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.imovirtual.com\/noticias\/destaques\/preferencia-publica-e-cessao-de-posicao-contratual-no-cpcv-quando-o-sistema-complica-o-que-devia-proteger\/","title":{"rendered":"Prefer\u00eancia p\u00fablica e cess\u00e3o de posi\u00e7\u00e3o contratual no CPCV: quando o sistema complica o que devia proteger"},"content":{"rendered":"\n<p>Imagine-se a venda de um im\u00f3vel habitacional situado numa ARU ou ZPU, isto \u00e9, num contexto em que pode existir um direito legal de prefer\u00eancia a favor do munic\u00edpio ou de outras entidades p\u00fablicas. O mecanismo \u00e9 conhecido: comunica-se o neg\u00f3cio projetado, identificando o pr\u00e9dio, o pre\u00e7o, as condi\u00e7\u00f5es e o comprador, para que a entidade preferente decida se quer substituir-se ao adquirente, comprando pelo mesmo valor e nas mesmas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Em teoria, a l\u00f3gica parece simples. Se a lei pretende proteger determinados objetivos de pol\u00edtica urbana, reabilita\u00e7\u00e3o ou habita\u00e7\u00e3o, faz sentido que a entidade p\u00fablica possa entrar no neg\u00f3cio antes da transmiss\u00e3o definitiva. O problema surge quando este modelo, pensado para uma realidade mais linear, \u00e9 confrontado com a din\u00e2mica atual do mercado imobili\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, muitos contratos-promessa de compra e venda incluem cl\u00e1usulas de cess\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o contratual. E isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o. \u00c9, muitas vezes, um mecanismo normal de flexibilidade: para acomodar altera\u00e7\u00f5es no financiamento, reorganiza\u00e7\u00f5es patrimoniais, entrada de investidores ou simples ajustamentos na estrutura do neg\u00f3cio. Em suma, o promitente comprador inicial nem sempre \u00e9 o adquirente final.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 aqui que nasce a fric\u00e7\u00e3o. Se, no momento da comunica\u00e7\u00e3o para efeitos de prefer\u00eancia, foi identificado um determinado comprador e, mais tarde, esse comprador cede a sua posi\u00e7\u00e3o a um terceiro, ent\u00e3o o adquirente final j\u00e1 n\u00e3o corresponde ao que constava do an\u00fancio inicial. E, se se entender que a identidade do comprador \u00e9 elemento essencial do procedimento, ent\u00e3o o an\u00fancio deixa de refletir com rigor o neg\u00f3cio que vai efetivamente acontecer. Na pr\u00e1tica, reabre-se tudo: nova comunica\u00e7\u00e3o, novo prazo, nova possibilidade de exerc\u00edcio da prefer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 neste ponto que o sistema come\u00e7a a perder racionalidade e tem consequ\u00eancias patrimoniais muito concretas. Imagine-se que o cession\u00e1rio pagou ao cedente um valor para entrar no contrato. N\u00e3o estamos a falar do pre\u00e7o do im\u00f3vel, mas do montante pago pela pr\u00f3pria cess\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o contratual. Se, depois disso, o munic\u00edpio exercer a prefer\u00eancia, poder\u00e1 faz\u00ea-lo pelo valor do neg\u00f3cio anunciado, ou seja, o pre\u00e7o do im\u00f3vel e as condi\u00e7\u00f5es comunicadas. Mas n\u00e3o pelo valor adicional que o cession\u00e1rio pagou ao cedente para assumir aquela posi\u00e7\u00e3o. Esse montante fica fora do mecanismo. E, por isso, pode ficar sem prote\u00e7\u00e3o efetiva.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 aqui que a falha do sistema se torna mais evidente. O regime admite que a prefer\u00eancia p\u00fablica possa afastar o cession\u00e1rio da aquisi\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o resolve de forma clara o impacto econ\u00f3mico dessa substitui\u00e7\u00e3o sobre os valores j\u00e1 pagos entre cedente e cession\u00e1rio. O resultado pode ser duro, pois o munic\u00edpio fica com o im\u00f3vel, o cedente j\u00e1 recebeu, e o cession\u00e1rio arrisca ficar sem o neg\u00f3cio e sem o valor que entregou para entrar nele.<\/p>\n\n\n\n<p>E isto \u00e9 tanto mais problem\u00e1tico quanto a cess\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o contratual j\u00e1 faz parte da normalidade do mercado. Fingir que o comprador \u00e9 sempre o mesmo, do an\u00fancio inicial at\u00e9 \u00e0 escritura, \u00e9 legislar para uma realidade que j\u00e1 n\u00e3o existe. E quando a lei insiste numa vis\u00e3o formalista que n\u00e3o acompanha a pr\u00e1tica negocial, deixa de ordenar o mercado e passa a perturb\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, este desenho produz um efeito colateral grave: transforma a prefer\u00eancia p\u00fablica num fator de hesita\u00e7\u00e3o. Os operadores deixam de olhar para o mecanismo como uma regra previs\u00edvel de tutela do interesse p\u00fablico e come\u00e7am a v\u00ea-lo como uma zona de risco, onde qualquer altera\u00e7\u00e3o subjetiva pode reiniciar prazos, bloquear opera\u00e7\u00f5es e gerar perdas. Quando uma figura jur\u00eddica de pol\u00edtica p\u00fablica passa a ser percecionada como amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a do neg\u00f3cio, algo est\u00e1 mal constru\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>A solu\u00e7\u00e3o exige clareza. \u00c9 indispens\u00e1vel prever expressamente o tratamento do valor pago pela cess\u00e3o, para evitar que o cession\u00e1rio fique desprotegido perante um preju\u00edzo que decorre de uma defici\u00eancia do pr\u00f3prio sistema. O direito n\u00e3o pode fingir que s\u00f3 existe o pre\u00e7o formal do im\u00f3vel, quando sabe que, na realidade, h\u00e1 um custo econ\u00f3mico adicional de entrada no neg\u00f3cio.<\/p>\n\n\n\n<p>No fundo, a quest\u00e3o \u00e9 simples. Se queremos ARU e ZPU como instrumentos cred\u00edveis de reabilita\u00e7\u00e3o urbana e pol\u00edtica de habita\u00e7\u00e3o, os mecanismos associados t\u00eam de ser previs\u00edveis, coerentes e ajustados \u00e0 realidade do mercado. N\u00e3o podem funcionar como armadilhas procedimentais que penalizam quem atua de boa-f\u00e9 e com base em pr\u00e1ticas negociais correntes.<\/p>\n\n\n\n<p>A prefer\u00eancia p\u00fablica deve servir para proteger o interesse p\u00fablico, n\u00e3o para lan\u00e7ar instabilidade sobre o com\u00e9rcio jur\u00eddico. Deve permitir \u00e0 entidade p\u00fablica adquirir o im\u00f3vel quando isso fa\u00e7a sentido, n\u00e3o criar um sistema em que cada cess\u00e3o se transforma numa nova porta para a incerteza.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine-se a venda de um im\u00f3vel habitacional situado numa ARU ou ZPU, isto \u00e9, num contexto em que pode existir um direito legal de prefer\u00eancia a favor do munic\u00edpio ou de outras entidades p\u00fablicas. 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